Fernando Pessoa #04 – Yes, it’s me

If we can make the stark (& perhaps unfair) distinction that one is either contained by the world or that one contains the world inside oneself, then Pessoa, in this poem signed by Campos, belongs to the second category. Campos here contains the world, observes it like a little crystal ball inside a secret room, where no one else is permitted to enter. & by the power of containing the world inside himself, he is not in the world nor can he enter it.

My own spare part

This leads Pessoa’s speaker back to himself, that “accessory” of his existence which nevertheless is his only “solution”. Yet, the intermittent “impressions” that interrupt his discourse are not insignificant, since they point to the transcendence that the speaker yearns for; they are the emblems of the desire for entrance into the world. But, as we already said, this speaker cannot enter the world since the world is inside him.

Sim, sou eu

Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobresselente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem de lhe ia sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, no mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto, ou quanto metafísica,
Como o Sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo—
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De uma grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa vontage para com a vida encostada de testa à janela,
Num chover com som lá fora
E não as lágrimas adultas de custar a engolir.

Baste, sem baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissários em carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bob com o grande fato de outro,
A quem tirem as capainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio!…

This entry was posted in Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Trans. from Portuguese. Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s